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Alzira Portela Lário: a primeira e única mulher portuguesa que conquistou a vitória da icónica Ultramaratona Spartathlon

Foto do escritor: Diana Portela
Diana Portela
30 de mai. de 2024
8 min de leitura

Depois de uma preparação intensiva, Alzira Lário, correu sem parar 246km desde a cidade de Atenas até Esparta, enfrentando todo o tipo de terreno e condições meteorológicas. A atleta conta a sua experiência inesquecível e única como vencedora da primordial Ultramaratona Spartathlon de 2001.






Mas primeiro o que é a Ultramaratona Spartathlon? A Ultramaratona Spartathlon é uma prova de longa distância histórica e uma das mais difíceis de completar, mas, ao mesmo tempo a mais interessante. Esta consiste numa distância de 246Km entre as cidades gregas de Atenas e Esparta, realizada desde 1983.


A sua vertente histórica baseia-se em Fidípides, um mensageiro ateniense que foi enviado à cidade de Esparta no ano 490 a.C. para procurar ajuda contra os persas na Batalha de Maratona. Sendo daqui que surgiu o nome das provas de maratona. Até aos dias de hoje, este percurso é recriado na Ultramaratona de Spartathlon, todos os anos no mês de setembro.


A corrida começa às sete da manhã, normalmente na última sexta-feira do mês de setembro na Acrópole. Começam em direção ao litoral, percorrendo a costa até Corinto. Depois passam em Nemea, Nestani, Tégea e finalmente Esparta.

Alzira Lário foi uma das corredoras desta ultramaratona em 2001, tendo sido a primeira mulher portuguesa a vencer, com uma marca de 30:31:41h. Porém esta atleta não teve um início comum de carreira.


A atleta começa logo por dizer que “não gostava de desporto, nunca tinha feito desporto até aos 28 anos” e só começou a praticar desporto por prescrição médica para evitar as dores no corpo que tinha na altura. A filha na altura de 9 anos já praticava atletismo, então decidiu começar a correr também.


Tudo começou no Clube Vila de Cangas, na Espanha, pois, Alzira, na altura vivia lá. Alzira declarou, “Quando comecei a correr, eu era muito descoordenada. Havia uns miúdos pequenos que vinham atrás de mim e eles diziam: mas para onde vai esta velha?”, e isto foi o que serviu de motivação para começar a sua carreira, com o objetivo de provar que não era “velha” e que ia conseguir vencer provas. Estas são algumas das lembranças que a marcam, que até podem ser insignificantes, mas, importantes na sua carreira.


Alzira, começou por participar em maratonas, tendo sido a única portuguesa a vencer a maratona de Madrid em 1993. “Quando ganhei a maratona de Madrid foi engraçado. (…) Nós fizemos a inscrição em cima da hora (…) e quando cheguei à meta fui a vencedora!”, contando ainda que, quando chegou à meta todos ficaram espantados, pois 8 dias antes tinha corrido noutra prova, que não conseguiu vencer. Esta foi a sua última prova abaixo dos 100km, pois Alzira, queria passar para as provas de 100km vencedora de uma última maratona.


Na sua carreira, como já sabia que não ia conseguir grandes marcas, e depois de fazer provas de menos de 100km, ela e o seu treinador optaram por se focar em treinar e participar em provas de 100km. A atleta marcou logo como objetivo participar no Campeonato do Mundo nos 100km e depois de treinar durante um ano, os responsáveis não a inscreveram a tempo e não pode correr. Para compensar esta falha, Alzira, foi competir a Bélgica, e constata que, “chego lá e mostro que estou bem preparada, porque faço a melhor marca europeia e a segunda marca mundial desse ano (1994), e a oitava marca mundial de todo o tempo, até esse ano. Mas depois o mal já estava feito.”.


Finalmente, decide participar na icónica e histórica Ultramaratona Spartathlon. Como Alzira declara, “Não há provas de 100km nos Jogos Olímpicos (…) mas, nós temos, nos 100km, uma prova, que no fundo, é para nós atletas, como sejam os Jogos Olímpicos, que é o Spartathlon.”. Esta é uma “prova muito dura” de 246km e “é preciso treinar muito” e a atleta, Alzira Lário, tinha como motivação o querer ganhar, como declarou que disse ao seu treinador, “Eu vou treiná-la (a prova) para ganhar, senão eu não quero ir”.


A partir daqui, conta que foi “um ano de morrer a treinar” sem parar. Partilhou que umas das corridas que fez no seu treino foi correr desde a catedral de Tui até à catedral de Santiago, 15 dias antes da prova, com um colega que também estava a ser treinado para participar na Spartathlon. Constata que “foi de sofrer… eu só corri bem desde Tui a Porrinho. Em Porrinho já podia arrumar as sapatilhas e ir para casa, porque eu já ia toda rota (…) já ia cansadíssima!”. Depois de perceber que só naquela distância já estava a sofrer tanto, Alzira, só pensava “meu deus, mas o que é eu vou fazer daqui a 15 dias? Como é que vou correr 246km se eu hoje aos 15km já não posso mais”, no entanto, não desistiu desse treino e continuou a correr. Naquele dia já tinham tudo combinado com a polícia de cada localidade que os vinha receber, depois também cortaram a autoestrada para os dois atletas, Alzira e Miguel, correrem “8km em Ponte Vedra, ao meio dia, numa hora de ponta (…) olha, todas as pessoas saiam do carro” para observarem os atletas, sendo que estava tudo programado para ser transmitido pela televisão. Assim sendo, depois de tanto sacrifício e sofrimento, chegou à catedral de Santiago e Alzira relembra, “quando cheguei lá, eu disse assim ao meu treinador, estão aqui as sapatilhas, pega tu nas sapatilhas, e vai tu correr à Grécia, porque eu não vou.”.


Imagem Facebook Alzira Lário











Embora, Alzira, tenha sofrido nos treinos, foi graças a esses treinos todos que conseguiu aguentar e não sofrer tanto no Spartathlon. E teve um exemplo em primeira mão disso, pois o seu amigo atleta não cumpriu os treinos e sofreu muito ao longo da prova, como Alzira conta, “como depois nós treinávamos juntos e combinámos, aquele que lhe mais custasse, o outro ajudava (…)”, então assim foi, Alzira acompanhou e ajudou o amigo atleta esquecendo que iria bater o recorde de 28 horas e focando-se apenas em ganhar a prova. Para Alzira Lário, assim já acabou por ser um pouco mais fácil, porque já não tinha de ir ao limite, mas, “tinha que ganhar a prova e isso estava por seguro”.


Mesmo assim, ela relembra que houve sempre momentos mais difíceis, como por exemplo, as condições meteorológicas, “o mais difícil, era o calor durante o dia e depois o frio que passámos, zero graus durante a noite na montanha…”. Outra parte desafiante é o circuito em si, em que os atletas têm de correr em montanha, estrada, terra batida, tudo. Alzira afirma, “não sei correr em montanha”, e conta a sua experiência de correr na montanha na prova Spartathlon, que é percorrida durante a noite quando não se consegue ver tudo muito bem, comparando-a a uma árvore de natal, porque a montanha encontrava-se com luzes LED a marcar o percurso até ao cimo. Alzira relembra, “quantas vezes eu fui com as mãos ao chão… e picas as mãos e magoas-te. Depois há uma pedra a cair e tu ouvias aquilo e eu digo, se me desvio para li, já vou. Portanto, tens de ir entre aquelas luzes (…) pelo meio.”.


Nesta sua experiência de correr na montanha, recorda que lhe foi mais difícil descer do que subir. “Por um lado, porque é noite. Por outro, não sabes o que tens e vais a travar, e de repente cais porque tens pedras e ervas…”. Admite também que na montanha perdeu muito tempo e que só estava com medo de ouvir a voz de uma mulher que a passasse à frente, mas como não ouviu nada deixou-se ir correndo ao ritmo dela. Volta a relembrar que “era frio, muito frio mesmo. E mesmo a roupa térmica não te chegava. Aquilo era terrível. A sorte que tínhamos era que nos avitualhamentos havia chá quente.”.


As diferenças de temperatura afeta muito na corrida, porque um atleta a correr com 40 graus de temperatura começa a “ter sede e leva a boca seca, parece que a língua é palha.”.  Um pormenor que Alzira partilha e, que dá como conselho, é que ao beber a água nunca se deve beber muito, e só alguma de alguns quilómetros em quilómetros. Os seus médicos de medicina de desporto, baseado em estudos já feitos, aconselharam a não beber muita para evitar que posteriormente essa água não fosse absorvida e provocasse desconforto enquanto corria. E, Alzira, cometeu um erro e bebeu mais do que devia, fazendo com que a água, como ela disse, “cantasse” na barriga e causasse desconforto.


Os atletas neste tipo de prova têm um acompanhamento enorme. Assim sendo, tinham de comunicar à organização a que quilómetro iriam querer água, trocar de sapatilhas, entre muitos outros detalhes. Outra experiência, durante o Spartathlon, que a atleta, Alzira Lário, relembra foi quando teve de fazer uma troca de sapatinhas. “Comecei a ter os pés muito molhados, comecei a sentir que estava a fazer bolhas e precisava de mudar as sapatilhas. Então eu disse ao meu treinador quando ele passou, para me arranjar um sítio onde me deixasse as sapatilhas”, porém o treinador não lhe podia dar essa assistência pois, podia ser desqualificada, sendo que já tinha tido uma advertência e tido sido penalizado por uma hora. Mesmo assim o treinador colocou as sapatilhas num olival e, Alzira, correu até lá e mudou, só que, como recorda, “esqueci-me de sujar as meias, porque uma meia quando vais a correr já começa a ficar suja, e aquelas estavam muito branquinhas.”. Quando passaram os fiscais, Alzira, só estava preocupada que eles reparassem nas meias, mas por sorte não repararam e continuou já com 12 horas de vantagem da segunda atleta feminina.


Chega, depois de 246km, à meta. “É muito bonita! Temos uma alameda enorme e existe as deusas, meninas vestidas de branco, que depois fazem os últimos 100 ou 200 metros contigo a correr. (…) é uma meta totalmente diferente, tu sobes umas escadas, está lá o rei Leónidas, em bronze, tens de subir mais uns três degrauzinhos, e o relógio só para quando tocas com a mão, muitos atletas até tocam com a cabeça ali na estátua”. Alzira relembra sempre que “foi uma prova muito bonita” e que adorou ganhá-la, pois, para os atletas, é como se tivessem ganho os Jogos Olímpicos. Para Alzira esta prova Spartathlon “significou tudo!”, “foi uma vitória, algo espetacular”. Na meta, colocaram-lhe a coroa de ramos de oliveira, deram o troféu, dão a beber água e ainda mais uma medalha.  


  Alzira conta que chegou depois a dar uma entrevista para mais tarde, para um livro que se escreveu e disse que “quero preparar a prova, para ir lá vencê-la e nunca mais voltar.”. Ela até diz que “gostaria de voltar a ganhar”, mas achava que não ia estar motivada depois daquilo tudo que passou, então disse “ir lá outra vez e ficar segunda? Ah, não, não!”. Reforça, “Nunca mais voltei, mas já fui com esse propósito. Ir, correr, ganhar e acabar assim.”. E assim foi, Alzira consagrou-se a primeira e, até agora a única, mulher portuguesa a vencer Spartathlon, com uma marca de 30h:31min:41seg.


Alzira Portela realça que só conseguiu praticar desporto e atingir estes objetivos devido ao facto de treinar e competir em Espanha, apesar de ter muita pena de dizer isto é a verdade. No país vizinho, a atleta tinha todo o apoio que precisava, tinha ginásio, as termas em Tui, dois bons médicos de medicina desportiva, uma fisioterapeuta, um massagista e muito mais. Alzira muitas vezes falava com atletas de Portugal e admite “em Portugal não conseguia fazer isto.”. Reforça que os atletas precisam de muito apoio e Portugal devia ter em atenção esse detalhe muito importante.


Isto não quer dizer que correu por Espanha, Alzira, nunca teve nacionalidade espanhola, “Eu sempre disse, eu represento é Portugal”, sendo que, enquanto corria para o clube de Celta de Vigo, ela decidiu tirar um ano para correr em Portugal, em Viana do Castelo e no Valenciano a custo zero, mesmo tendo consciência que no Celta de Vigo já recebia algum montante monetário.


Outra razão por não correr tanto em Portugal foi o facto de que aqui não se faziam provas de 100km. Alzira, realizou e organizou a primeira prova de 100km, na sua terra, Alvarães, freguesia de Viana do Castelo. Relembra que foi “uma prova muito bonita”, apesar de ter feito o seu pior tempo nesta prova, de 9h:20min, e ter sido uma prova “de morrer”, mas nunca desistiu e mesmo assim acabou em segundo lugar. Foi uma prova importante para Alzira, pois foi ela quem a organizou e conseguiu com que participassem atletas estrangeiros de todo o mundo, e foi a partir desta prova que se começou a fazer provas de 100km em Portugal.  


Consegue ver o histórico da atleta Alzira Portela Lário aqui:



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