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Pai, Mãe, Quero Ser Jogadora de Futebol: uma abordagem sobre a realidade das jovens jogadoras portuguesas

Foto do escritor: André Oliveira
André Oliveira
31 de mai. de 2024
5 min de leitura

O futebol feminino tem vivenciado um progresso notável e conquistado espaço no panorama nacional. No decorrer desse crescimento, destacam-se as histórias, os desafios e as ambições das jovens jogadoras do SC Rio Tinto. Estas atletas ilustram uma geração que desafia estereótipos e redefine o papel da mulher no desporto.




Desde os primeiros passos noutras modalidades, até encontrarem no futebol a sua verdadeira paixão. As jovens jogadoras percorreram diferentes trajetórias. Mariana Alves começou no voleibol, Matilde Ribeiro iniciou no basquetebol e Leonor Granja no futsal.


Lau Lopes insistiu para que Leonor começasse no futsal com 7 anos, devido à vergonha e ausência de jeito da filha, que queria “seguir as pegadas do primo mais velho”. Embora tenha empurrada um pouco a filha, Lau acredita que “foi bom que tenha sido assim”.


A mãe recordou a preocupação e apreensão sentida nos primeiros tempos de Leonor no futsal. “O meu coração ainda apertava um bocadinho, quando ela caía, quando se magoava, mas agora é completamente tranquilo, nós sabemos que faz parte do processo de crescimento”


Na ausência de equipas femininas, as jovens jogadoras iniciaram em grupos mistos, maioritariamente compostos por rapazes. Matilde Ribeiro, 16 anos, afirmou ter sofrido preconceito no primeiro treino. No entanto, com o decorrer do tempo, foi aceite naturalmente, conquistando uma relação próxima com os colegas de equipa.  Vitória Coelho, 16 anos, teve um início atribulado no futebol, tendo sofrido preconceito dos rapazes e pais dos atletas.  


Na passagem para uma equipa feminina, Leonor Granja, 16 anos, e Mariana Alves, 15 anos, sentiram-se muito mais acolhidas e confortáveis. Mariana sentia que “elas também tinham mais o mesmo pensamento que eu”, não deixou de parte o grupo anterior e mencionou que “quando joguei com os rapazes, eles também foram sempre espetaculares comigo, nunca me deixaram de fora”.


O treinador Diogo Fernandes referiu-se ao projeto feminino como “uma realidade totalmente diferente”. Diogo afirmou ter-se mantido no projeto pelo carinho, respeito e dedicação que as atletas demonstraram, descrevendo as suas atitudes como muito diferentes dos meninos. Assim como, a necessidade de lutar pela igualdade de género no futebol. “Olhavas para a realidade do masculino e eles olhavam, um bocadinho, com um ar de desprezo para elas, e nós lutamos diariamente por isso, para elas terem a igualdade que merecem”.


Enquanto vice-presidente do futebol feminino do SC Rio Tinto e diretora da equipa de sub-19 e sénior, Lau Lopes considera ter uma enorme responsabilidade ao lidar com 140 atletas dos 4 aos 18 anos. A vice-presidente ressaltou que todas as jogadoras precisam de cuidados diferentes, nos quais a exigência e o carinho são indispensáveis. Sendo um esforço que decorre com o objetivo de “torná-las melhores atletas e torná-las melhores pessoas”.


Mais do que apoio tático e técnico, as atletas necessitam de apoio na sua formação enquanto cidadãs. Diogo destacou o papel preponderante do treinador num projeto feminino. No qual, “para além de um treinador tens que ser um amigo, um pai, uma pessoa presente, que esteja ali para apoiar, porque o desafio é grande”, realçando a necessidade de apoio às atletas, num projeto em que a formação é priorizada à vitória.


Diogo salientou a necessidade de colocar as atletas a competir no contexto masculino, em virtude da adversidade que o ambiente proporciona. O treinador explicou que as suas jogadoras “ganharam muita bagagem no masculino”, permitindo assim a sua evolução. De tal forma, que no regresso ao feminino, “o desafio não era tão grande”.


As atletas confirmaram as intenções dos coordenadores e treinadores do projeto, ao realçarem a evolução perante as equipas masculinas. Questionadas pela preferência, Maria Pinto, 12 anos, e Leonor Granja expressaram maior motivação para defrontar rapazes, por terem a possibilidade de contrariar o preconceito, de que os rapazes jogam melhor que as raparigas. Vitória realça ainda a intensidade, competitividade e o jogo de corpo “que é aquilo que eu gosto de jogar e tenho muitas saudades de jogar contra eles e sentir aquela competitividade que nós tínhamos antes”.


Lançadas desde muito cedo para representar o SC Rio Tinto no escalão sénior, as jovens jogadoras competem contra atletas mais velhas.  Leonor Granja e Vitória Coelho evidenciaram a experiência das jogadoras. Mariana Alves realçou as diferenças na questão física, mas considera que na componente psicológica e mental “somos superiores ou estamos ao mesmo nível que elas, nós mostramos isso dentro de campo e não ligamos a mais nada e só queremos jogar”.


Por vezes, as atletas realizam dois jogos por fim de semana. Matilde e Leonor olham para os desafios com entusiamo, descrevendo-os como importantes e necessários para o seu desenvolvimento.


Os pais das atletas do SC Rio Tinto constituem a claque “Febre Amarela”. Leonor Granja evidenciou a importância do apoio, “dá-nos uma força maior para ir para o jogo, ganhar, dar tudo por eles e por nós”.  Devido às longas deslocações, os pais não conseguem estar sempre presentes. Nesses momentos, as atletas sentem a diferença e consideram ser uma realidade muito diferente. A diretora referiu que “Os pais do futebol feminino são totalmente diferentes dos pais do futebol masculino”, destacando o apoio notável da “Febre Amarela”.


Lau Lopes revelou os desafios de conciliar o papel de vice-presidente do futebol feminino e diretora na equipa onde a filha joga. A família sente a falta da sua presença e “por vezes preferia ser isenta” e não desempenhar nenhum cargo no clube, a fim de evitar determinados comentários exteriores sobre a posição da filha no clube. Confessou que no princípio “a Leonor não queria que eu fosse a diretora da equipa dela. Acho que hoje ela gosta e quer”.


Convocadas para representar a seleção nacional, as jogadoras expressaram  a gratidão e o orgulho sentidos. Embora não tenha sido chamada regularmente à seleção, Leonor Granja realçou a necessidade de trabalhar e melhorar a cada dia para ser uma melhor versão de si mesma. “Neste momento quero ser o melhor de mim e não melhor que as outras”.


Apesar de jovens, as atletas já viveram diversos momentos para mais tarde recordarem. Vitória Coelho foi a melhor marcadora da presente edição da Taça de Portugal, a avançada afirmou ser uma enorme responsabilidade, fruto do trabalho da equipa. No início da época, Matilde Ribeiro deixou o SC Rio Tinto para rumar ao SL Benfica, a atleta confirmou ter aprendido muito nesta passagem, tendo regressado pelas saudades da família.  Leonor Granja foi capitã, com 15 anos,  frente ao Sporting CP para a Taça de Portugal 22/23,  descrevendo o momento como inimaginável.


Movidas pelo amor ao futebol, todas as atletas ambicionam praticar futebol profissionalmente. Matilde Ribeiro referiu que no futebol, consegue “experienciar vários sentimentos no mesmo jogo, treino”, contrariamente a outras modalidades. Vitória encontra no futebol uma terapia. Mariana Alves realça a necessidade de trabalhar e persistir para alcançar os seus objetivos.


O sonho que outrora parecia inconcebível para as mulheres das gerações passadas, torna-se um desejo real para as jovens jogadoras atuais. Hoje, as atletas têm a possibilidade de atuar em competições de alto nível e demonstrar a sua técnica e paixão pelo jogo. Fortalecidas pelo apoio incondicional da família, treinadores, diretores e coordenadores, as jogadoras continuam a quebrar barreiras e inspirar gerações futuras. Cada conquista é uma prova de determinação e contribuição para um futuro mais igualitário no desporto.

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