“Como é possível um pai não saber salvar uma filha?”: a urgência de literacia em primeiros socorros

Atualizado: 29 de mai. de 2024
Estamos perante uma sociedade em que a falta de instrução em situações de
emergência é notória. Por isto, o bombeiro/enfermeiro Miguel Ribeiro implementou o PIPA, o Projeto de Intervenção e Prevenção de Acidentes.

Vivemos numa sociedade contemporânea onde as práticas de socorro são cada vez
mais necessárias no quotidiano. O certo é que grande parte da população não tem
conhecimento suficiente para agir na ‘hora H’. Trata-se de um cenário preocupante que
pode levar pequenos incidentes a tragédias evitáveis.
O conhecimento das práticas de socorro está ainda muito restrito aos profissionais da
saúde, levando a que os cidadãos portugueses estejam pouco preparados para atuar em
eventuais crises do dia-a-dia. Cenários que abrangem desde os acidentes domésticos
até às situações de crise, com o devido conhecimento, podem ter um desfecho mais
positivo, mas que com a falta do mesmo podem desencadear um agravamento destes.
Para contornar a situação, várias medidas podem ser adotadas. A implementação de
programas educativos seria um mote para que este conhecimento vital se espalhasse
pela sociedade. Foi isto que Miguel Ribeiro fez.
Enfermeiro e bombeiro, desde sempre Miguel Ribeiro tem grande interesse pela área da saúde, muito devido ao seu avô, a sua grande paixão e inspiração. Faz emergência pré-hospitalar e, por isso, passou por muitas situações em que se apercebia que as pessoas
não demonstravam grande literacia em relação aos primeiros socorros. Miguel refere que
“elas baseavam-se em ‘mezinhas antigas’, no que ouviam dizer e não no que era
correto”.
Em 2004/2005, foi chamado para uma emergência de uma jovem de 15 anos que estava inconsciente, no Natal. Quando chegou ao local deparou-se com o pai embrulhado na filha com um cobertor, na tentativa de a aquecer. A mãe da menina estava grávida de 6/7
meses, já com um ‘barrigão’. Na avaliação dos bombeiros a jovem não apresentava
pulso, então iniciaram o suporte básico de vida, mas já era muito tarde. Miguel declara
que “na ausência de reanimação cardiorrespiratória por cada minuto que passa a
probabilidade de sobrevivência desce 10%”. O bombeiro diz ainda “Este caso fez-me
pensar: Mas, Miguel, como é possível um pai não saber salvar uma filha?”.
Entretanto Miguel Ribeiro teve oportunidade de, nos bombeiros, ser formador.
Tencionava demonstrar como é feito o suporte básico de vida, tentar de certa forma
aumentar a literacia nas pessoas, contudo isto foi infrutífero. Desde o momento em que
foi formador dá formação a pessoas externas, a pessoas adultas, algumas em cursos
onde as próprias recebem dinheiro e mesmo assim não demonstram interesse. O
bombeiro chega a afirmar que “as pessoas não querem ter trabalho, querem que a
informação lhes chegue e na hora da verdade há mortes e surgem os “ai se eu sabia, ai
se eu soubesse” …” Acrescenta ainda que “as pessoas estão mais interessadas em
saber futebol do que salvar a pessoa que está ao lado e que, por vezes, é nosso pai,
nossa mãe, nossa irmã, nosso filho…”. Segundo constatou, Miguel enfrenta esta
realidade sempre que vai para uma ocorrência. “Nós não salvamos vidas porque as
pessoas não fazem nada. Se eu te disser que em mais de mil paragens só consegui
salvar uma vida não te estou a mentir.”, refere o bombeiro.
O enfermeiro não estava a conseguir atingir os seus objetivos com os adultos e, por isso, idealizou, há uns anos, o Projeto de Intervenção e Prevenção de Acidentes (PIPA),
direcionado às crianças. Foi a partir do Centro Qualifica de Vizela que se deu o mote para
a concretização deste projeto. Em seguida, estabeleceu-se contacto com a Câmara
Municipal de Vizela, que juntamente com a saúde escolar do Centro de Saúde de Vizela
se aliaram ao projeto. “Então unimos esforços: Câmara, Centro de Saúde e Bombeiros.
Assim nasceu o PIPA.”, diz Miguel.
A resposta ao projeto foi ótima, principalmente por parte dos alunos. Miguel Ribeiro
apercebeu-se que os alunos não sabiam das práticas e até os próprios professores não
tinham conhecimento de algumas atuações.
Numa primeira fase foi dada uma formação aos docentes, porque depois da atuação,
que dura cerca de 30/40 minutos, podem surgir dúvidas que têm de ser esclarecidas
pelos professores. Só após esta formação se deu início à segunda fase: o ensino das
práticas de socorro às crianças.
O bombeiro refere “ainda esta semana vi relatos de pais e professores que dizem que o programa é excelente, bem como a forma como está produzido, que não existe em mais
lado nenhum, que é realmente importante”. Ainda assim, e apesar de receber feedback
de vários pais, Miguel Ribeiro destaca que também sabe “que alguns pais só ficaram a
saber do PIPA porque foi feita uma questão interna sobre o projeto, alguns nem sabiam o
que isso era e nem procuraram saber”. Por outro lado, os alunos adoram o projeto, já
que quando o bombeiro se dirige às escolas, as crianças o abraçam e querem que o
mesmo as acarinhe. “Isto enche-me o coração”, reforça o enfermeiro.
A importância deste projeto insere-se na criação de adultos mais capazes, que passam a
mensagem e que desde novos começam a ter consciência do que se passa à volta.
Miguel Ribeiro salienta que o seu objetivo a curto/médio prazo é viver “numa sociedade
que seja segura, que se acontecer de eu cair no meio da rua, no meio do nada, a pessoa
que esteja ao meu lado saiba fazer suporte básico de vida porque alguém lhe ensinou,
seja o filho, o marido, o primo…”.
O bombeiro diz que as crianças começam a ter consciência da importância de saberem
as práticas de socorro e acabam por transmitir isso, tornando-se adultos mais
conscientes. “Por isso é que é importante o ser na escola, porque é de onde vem a
educação, é de onde eles ‘bebem’ toda a informação. As crianças, atualmente, ‘bebem’
informação e transmitem isso de uma forma espetacular”, ressalta o enfermeiro.
As aulas deste projeto são sobretudo teórico-práticas. Os alunos consolidam as
aprendizagens teóricas através de ilustrações, posters, cartazes, etc. Em todas as apresentações o bombeiro, após as explicações, leva materiais que ajudem as crianças a praticar e a reforçar o que aprenderam. As apresentações seguem uma programação baseada em aprender o conceito, do que se trata e do que as crianças podem fazer. “Às vezes é o que não devem fazer, porque está muito enraizado na nossa sociedade coisas que não fazem sentido”, acrescenta o enfermeiro.
Para captar a atenção dos pequenos, Miguel Ribeiro vai fardado, o que faz com que os
mesmos “fiquem todos contentes”. As técnicas vão desde a utilização de ilustrações, de
jogos até às histórias. O bombeiro tem uma turma de uma escola que o acompanha e faz
uma demonstração, em marionetas, do conto dos “Três Porquinhos e o Lobo Mau”, a
qual foi adaptada. Nesta, “o lobo mau assusta os porquinhos, um sente-se mal e o lobo
mau é que liga ao 112, é ele que faz o suporte básico de vida e é ele que salva o
porquinho.”. Os alunos percebem a história e recebem a mensagem adequada. Estes
“sabem o que têm de dizer, fazem treinos nesse aspeto usando uma linguagem
adequada, sempre ao nível de ensino que estão inseridos”, sublinha o enfermeiro. As
crianças levam estas informações para casa e implementam-nas, seja através do ensino
das práticas aos pais ou das demonstrações que fazem.
No futuro, Miguel Ribeiro gostava de se dedicar a este projeto a tempo inteiro. Outro
objetivo é expandir as faixas etárias do público-alvo, isto é, não restringir este ensino só
ao pré-escolar e primeiro ciclo, mas alargá-lo, até, pelo menos, ao décimo ano, “onde
transversalmente era dado o suporte básico de vida”.
O PIPA está preparado para ser implementado em qualquer escola do país, uma vez que existe um dossiê detalhado sobre as intervenções, o que fazer em cada uma delas e a
importância das mesmas. Miguel tem esperança de que este projeto evolua e que possa
fazer parte do estudo, que se possa tornar numa disciplina.
Ainda assim, o bombeiro tem encontrado algumas dificuldades em atingir a opinião
pública. Este frisa que tenta criar interações no Facebook, quer na página do projeto,
quer em grupos de Vizela, mas em vão, uma vez que “as pessoas só querem saber do
futebol”.
Miguel Ribeiro enfatiza que “a nível escolar toda a gente sabe o que é o PIPA, toda a
gente sabe quem é o enfermeiro Miguel ou o bombeiro Miguel, mas infelizmente em
termos de opinião pública pouca gente sabe. Eu não posso entrar em casa das pessoas
e dizer: “Olhe, eu tenho isto, o que é que você acha?”. É o mal deste projeto, é não ter a
dimensão/importância que as pessoas deviam atribuir”.
Com este testemunho, evidencia-se a urgente necessidade da construção de uma
sociedade informada e consciente, pronta a prestar auxílio em casos de socorro. Contudo, é essencial sensibilizar as pessoas para a importância destes projetos, bem como
de medidas que eventualmente possam surgir.
Créditos de Imagens: PIPA - Projeto de intervenção e prevenção de acidentes




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