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De Clube Desportivo das Aves a AVS SAD: Que impacto teve esta mudança para a vila e para os adeptos?

Foto do escritor: Iara Monteiro
Iara Monteiro
31 de mai. de 2024
7 min de leitura

Atualizado: 3 de jun. de 2024

Uma transformação que marcou um ponto de viragem significativo na história de Vila das Aves e na vida dos adeptos. Entre memórias de glórias e desafios, os relatos de Abílio Monteiro, Rui Nuno e Margarida Lopes mostram-nos diferentes pontos de vista sobre esta requintada história.



O Clube Desportivo das Aves foi fundado a 12 de novembro de 1930 por um grupo de amigos que regularmente se reunia na “Sapataria do Pedras”, junto ao mercado da Vila das Aves. Os fundadores do mesmo nomearam Manuel Sousa Neto como o primeiro presidente da história, enquanto Benjamim Lemos foi registado como primeiro sócio. Na mesma ocasião, ficou estabelecido que os associados pagariam uma quota de 25 tostões (equivalente a 0,62 cêntimos).


Nos primeiros anos, o clube dedicou-se a competições locais e regionais. O futebol era apenas uma das modalidades, uma vez que também promoviam diversas atividades desportivas e culturais para a comunidade. Nesta fase inicial, a infraestrutura era modesta, com um campo de futebol simples e recursos limitados.




Abílio Monteiro, antigo jogador do CDA, à conversa com o eCCencial, revelou que “fui o primeiro da minha terra a jogar no Aves. Todos me conheciam como o Monteiro que jogava no Aves”. O antigo capitão das velhas guardas diz que “era tudo muito diferente do futebol de agora. Tínhamos uma preparação que na altura achavam que era a melhor, mas hoje em dia percebemos que só nos fazia mal”.


Durante a década de 70, o CD Aves começou a destacar-se mais no cenário regional, investindo na melhoria das suas infraestruturas e na formação de jogadores locais, o que resultou em melhores desempenhos nos campeonatos distritais. Este período de crescimento culminou com a promoção à Segunda Divisão Nacional, onde começou a enfrentar clubes de maior expressão e a ganhar notoriedade no futebol português.


Na temporada 1984/85, os avenses sagram-se campeões nacionais da mesma divisão, alcançando, assim, o mais alto patamar do futebol nacional. Esta conquista chegou pelo comando do professor Neca, um nome que ficou para sempre marcado no coração e na memória dos adeptos.


A partir de 2000, começou um momento de consolidação para os avenses. Apesar de não estarem permanentemente na Primeira Liga, o clube conseguiu afirmar-se como uma presença regular na Segunda Liga, mostrando competitividade e uma gestão relativamente estável. O apoio da comunidade e o desenvolvimento de jogadores da formação foram essenciais para manter este nível desportivo.


Rui Nuno, adepto do CDA durante vários anos, confessa que, desde novo, o seu pai incutiu nele “a mentalidade de que devo apoiar o clube da minha terra, mesmo sendo o Aves o clube rival dele”. Este testemunho transparece aquilo que se vivia em Vila das Aves, um sentimento de orgulho e um grande apoio ao clube da terra, “aquilo era muito mais do que uma instituição, era uma família”. Margarida Lopes, que também era adepta do CDA e agora do AVS, relata que “para além de ser o clube da minha vila, tem um significado especial por tudo o que já passou e por tudo o que já vivi ao ser adepta do Aves”.


A 30 de Abril de 2017, o Desportivo das Aves sobe à Primeira Liga, pela quarta vez na sua história. A vila, mais uma vez, reuniu-se para mostrar que o clube dava vida aquele local e unia os avenses como nunca se tinha visto. A época seguinte ficou para sempre marcada na história do CD Aves, uma vez que além da manutenção, sob a liderança de José Mota, os avenses chegaram à final da Taça de Portugal, levando a melhor sobre o Sporting CP.




A chegada à final da Taça de Portugal foi algo que fez mover a vila inteira. Rui, como tantos outros milhares de adeptos, deslocou-se ao Estádio do Jamor “porque ganhando ou perdendo, não podia faltar a algo tão inédito que se viveu na vila. Nem era só pelo clube, era também pela vila em si”.


No entanto, após a glória, vieram as dificuldades… O clube começou a enfrentar sérios problemas financeiros, agravados por uma má gestão e dívidas acumuladas. A esta altura, a SAD do clube já tomava conta de uma grande parte do mesmo, levando a que as suas decisões afetassem gravemente o CD Aves.




A época 2019/2020 foi particularmente difícil, com o CDA a ser despromovido para a Segunda Liga e, eventualmente, para a Liga 3. Este foi um momento triste não só para os adeptos como para o futebol português, Rui Nuno viu este momento com grande amargor uma vez que “estávamos a assistir à forma como estavam a arruinar o clube”.


“Desde o começo, na apresentação do plantel, já estávamos a prever que algo não estava certo, mesmo que muitos não quisessem acreditar”. A situação dos avenses ia se degradando ao longo dos meses e chegaram até a haver, nas redes sociais, “membros da claque que foram alvo de censura, com comentários apagados, e chegaram até a ser bloqueados pelo clube no Instagram”. Em setembro de 2020, toda esta situação culminou no impedimento de competir nos campeonatos profissionais devido ao elevado número de dívidas, levando à dissolução do clube.


Apesar de todos estes problemas, os adeptos locais não desistiram do clube e criaram o CD Aves 1930, que começou a competir na última divisão do futebol português. Apesar de muitos terem virado as costas ao mesmo, Rui diz que o sentimento só mudou porque “parecia que estávamos a ver um filho a dar os primeiros passos, sabíamos que os poucos adeptos que ali estavam era por amor”.


“Se houve realmente um sentimento genuíno pelo clube foi ali”. O novo clube trabalhava com uma abordagem de gestão mais prudente e sustentável, com o objetivo de eventualmente retornar aos escalões mais altos do futebol português.



Em 2023, a formação de Vila das Aves voltou a ser vítima de uma grande reviravolta, talvez a maior que o clube já enfrentou na sua história. Foi quando a 24 de março do mesmo ano, o Desportivo das Aves por meio das suas redes sociais emitiu um comunicado no qual anunciava que, devido ao “impedimento de inscrições de novos atletas na modalidade de futebol no Clube Desportivo das Aves e CD Aves 1930” os responsáveis encontravam-se numa procura intensiva de formas para solucionar este problema.


Assim sendo, uma das soluções apresentadas pelo clube estava ligada a conversas entre a direção do mesmo e a União Desportiva Vilafranquense Futebol SAD, que naquele momento procurava um local onde pudesse continuar com os seus trabalhos desportivos. Foi ainda destacada a importância da opinião dos sócios, que posteriormente deram luz verde a este projeto, dizendo que “nenhuma solução será implementada sem a validação dos associados”.


Para os adeptos “foi um momento muito estranho, não sabíamos o que poderia acontecer, achávamos que o clube ia acabar”. Além disso, declaram que tiveram “a normal reação de receio e de desconfiança, porque o futebol puro não funciona assim”.


Alguns dias depois realizou-se a assembleia geral onde seria discutida esta proposta e ainda se procederia à sua votação. Resultando na presença de sensivelmente 200 sócios, dos quais apenas quatro votaram contra e oito se abstiveram, havendo, assim, uma larga margem de aprovação pela massa associativa do clube.


Desta forma, o Clube Desportivo das Aves 1930 passou então por um processo de reformulação o qual resultou na fundação da AVS Futebol SAD a 5 de maio. Em termos desportivos, esta decisão significaria que o novo clube com sede no Estádio do CD Aves, faria o futebol profissional regressar a Vila das Aves, disputando a Liga SABSEG a partir da temporada seguinte.



Margarida, apesar de ter continuado a apoiar o clube da sua vila, declara que o sentimento “mudou aquando da mudança para AVS Futebol SAD, porque quer queiramos quer não, não é o Clube Desportivo das Aves, e a emoção não é a mesma”.


Apesar de todas as complicações legais e de, neste momento, ainda não ser possível que o AFS utilize o símbolo do CDA, como era objetivo inicial, Rui diz que “ou era isto ou não era nada porque eles indiretamente acabam por ajudar o Aves no basquetebol e futsal, porque continua a haver salários para pagar”.


A temporada de regresso foi marcada pelo sucesso deste novo projeto, tendo a equipa avense terminando o campeonato em 3º lugar, tendo, assim conquistado a oportunidade de jogar o play-off de acesso à Liga Portugal Betclic. O seu adversário é o Portimonense, 16º classificado da primeira liga, e a decisão será feita através de dois jogos. O primeiro já aconteceu em Portimão, terminado com a vitória do AVS por 1-2, o segundo será em Vila das Aves, a 2 de junho.


A história do Clube Desportivo das Aves é uma narrativa rica de desafios e triunfos, refletindo a paixão pelo futebol e a resiliência de uma comunidade. Desde a sua fundação em 1930 até à formação do CD Aves 1930, o clube sempre foi uma parte vital da identidade de Vila das Aves.


Abílio Monteiro relata que “naquela altura toda gente que gostava de futebol ia ver o Aves". A trajetória do mesmo, apesar de ter terminado no futebol, continua a ser taçada pelos jogadores de futsal e basquetebol que representam o vermelho e branco.


“A maior vila do futebol português diz tudo. O Aves dava ênfase à Vila, assim como dava uma certa 'fama' e conhecimento, para além das alegrias das subidas e da conquista da taça. O AVS não acrescenta muito para além daquilo que é a 'fama', que nem sempre é boa” confessa Margarida. Acrescenta ainda “a maior das mudanças é o número de adeptos e a paixão ao clube. O número de adeptos é claramente mais baixo, não existe claque, e nota-se que os adeptos não são tão fanáticos, ainda vão muito pelo desconhecido”.


Já o AVS Futebol SAD, apesar da controvérsia inicial e de uma história de vida curta, é um projeto que trouxe de volta à vila o futebol. Apesar de em moldes diferentes e de um estádio mais vazio, o AFS trouxe novamente Vila das Aves aos mais altos patamares do futebol português. Aos poucos, os avenses vão se habituando a esta nova presença e voltam a marcar presença em dias de jogo, mostrando, assim, que ainda vive neles uma vontade de apoiar o clube da terra.


Esta história com certeza terá, ainda, muitos capítulos. Resta aos avenses confiar no tempo e acreditar que o AFS conquistará a sua confiança e voltará a trazer a paixão pelo futebol à sua vila tão amada.

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